imagem ilustrativa
Hoje pela manhã, conversando com uma criança, perguntei-lhe
o que queria ser quando atingisse a idade adulta. A resposta foi
surpreendentemente negativa, mas totalmente compreensível:
- Quero ser ladrão!
Recomposta do susto, ajustei a postura e questionei:
- Como assim, “ladrão”? Você tem noção do que está me
dizendo?
E ele disse sem cerimônia:
- Sim, vejo na TV todos os dias. Os ladrões vivem bem, tia. Têm
carros potentes, mulheres bonitas e sempre estão com dinheiro no bolso. Alguns
vão “trabalhar para o povo” e dizem que o povo é importante. Estão sempre bem
vestidos, tem “corrente” (gargantilha), e quando matam e roubam, não podem ser
presos, pois existe um “negócio” chamado “imunidade parlamentar”, não sei bem o
que é, mas sei que com esse negócio, podem roubar, matar, desrespeitar e fazer
um monte de outras coisas que nós, “normais” não podemos.
Ah, e ainda tem o
salário. Minha mãe vive reclamando das contas, de uma tal de “alta de preços e
juros” e diz que o seu salário é uma vergonha, mas o dos ladrões não, sempre cresce,
e cresce rápido. Ladrão tem direito a coisas especiais, e tem os direitos
humanos, que protege o ladrão da minha mãe, mas não protege ela deles.
Os ladrões se divertem mais, vão às festas, praia, viajam e
tiram fotos o tempo todo. Minha mãe trabalha a semana inteira e nunca tem tempo
e nem dinheiro pra fazer compras e viajar, ah, e também não a vejo em fotos no
jornal e nas revistas da minha cidade. Qual o problema dela?
Encerrada a conversa, fiquei a refletir; qual o problema com
a mãe trabalhadora e honesta daquela criança?
Lembrei-me de um slogan ridículo “orgulho de ser brasileiro”
e pensei: do que posso me orgulhar neste país, senão da minha própria conduta e
de uns poucos que conheço?
Desigualdade social, miséria econômica, muito dinheiro para poucos
e fome e vergonha para a maioria. Nossa saúde morrendo a cada dia, nossa
segurança insegura e nossa educação à mercê de novelas cretinas e “BBBs”. Uma
sociedade hipócrita e covarde que se esconde atrás de uma legislação caduca e
burrocrática, onde um inocente morre na cadeia e um criminoso tem direito ao
dia das mães em casa, quando nem tem mais mãe.
O Brasil não se respeita, não se envergonha, não reage, não
muda. Porque tudo isso exige coragem, e gera cansaço, e não é isso que o
brasileiro quer, “ele” quer samba, cerveja e carnaval, BBB, pão e circo para
todos.
Sinto-me desprotegida agora, não nasci rica, não sou “político”,
não tenho amigos influentes e não quero ser desonesta, há chances para mim
neste país de poucos?

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